Como Foi Passar Três Meses na Suíça: O Que Aprendi Além dos Cartões-Postais
Minha experiência vivendo 90 dias na Suíça, descobrindo cidades, montanhas, cultura, idiomas e aprendizados que vão muito além dos cartões-postais.
Cléber Lima | Stradello
“A Suíça não foi apenas minha primeira viagem internacional. Foi o lugar que mudou completamente a maneira como eu enxergo o ato de viajar.”
Quando embarquei rumo à Suíça, em 2018, eu levava comigo uma mistura de ansiedade, curiosidade e insegurança.
Era a primeira vez que eu saía do Brasil.
Meu inglês era básico.
Eu não falava uma única palavra em alemão, francês ou italiano — justamente os idiomas predominantes do país. Quero dizer, eu conhecia apenas as palavras básicas do dia a dia e, mesmo assim, sem saber ao certo a pronúncia delas.
Mesmo assim, decidi ir.
Hoje, olhando para trás, percebo que essa decisão transformou muito mais do que minhas futuras viagens.
Ela mudou minha forma de observar lugares, pessoas e até mesmo meu próprio ritmo de vida.
Foram 90 dias vivendo intensamente a Suíça, explorando muito além das cidades famosas.
Conheci paisagens que pareciam irreais.
Peguei inúmeros trens.
Atravessei montanhas.
Cruzei lagos.
Visitei pequenas vilas onde quase não havia turistas.
Descobri que um país pode ser organizado sem perder sua essência.
E entendi, talvez pela primeira vez, o verdadeiro significado de viajar devagar.
Este artigo não é um guia turístico.
É um relato.
Uma coleção de memórias que explicam por que a Suíça continua sendo, até hoje, um dos lugares mais especiais que já conheci.
Minha maior preocupação antes de embarcar
Antes mesmo de pensar nos Alpes, nos lagos ou nas cidades medievais, havia uma pergunta que ocupava minha cabeça diariamente.
Como eu iria me comunicar?
No Brasil, ouvimos muito que a Suíça possui quatro idiomas oficiais.
- Alemão
- Francês
- Italiano
- Romanche
Na prática, isso parecia assustador.
Meu inglês era bastante limitado.
Eu nunca havia conversado com estrangeiros.
Muito menos precisado resolver problemas em outro idioma.
Durante semanas imaginei situações complicadas.
Como pedir informações?
Como comprar passagens?
Como pedir comida?
Como perguntar onde era algum lugar que eu queria conhecer?
A realidade foi completamente diferente.
Logo nos primeiros dias percebi que a educação das pessoas fazia toda diferença.
Mesmo quando eu não encontrava alguém que falasse inglês perfeitamente, todos tentavam ajudar.
Às vezes usando gestos.
Às vezes apenas apontando o caminho.
Foi ali que aprendi uma das primeiras lições das viagens internacionais.
Você não precisa falar perfeitamente.
Você precisa apenas estar disposto a tentar.
A primeira impressão: tudo parecia funcionar
Existe uma imagem muito conhecida da Suíça.
Relógios.
Chocolate.
Montanhas.
Trens.
Tudo isso realmente existe.
Mas existe algo que chama ainda mais atenção.
O funcionamento do país.
Era impressionante perceber como praticamente tudo acontecia no horário.
Os trens.
Os ônibus.
Os barcos.
Os bondes.
As conexões.
Era como se todas as peças de um enorme quebra-cabeça funcionassem perfeitamente juntas.
Para quem vinha de uma realidade completamente diferente, aquilo parecia quase inacreditável.
Viajar pela Suíça acabava se tornando parte da própria experiência.
Você não precisava apenas chegar ao destino.
O caminho já era um espetáculo.
Zurique: muito além do centro financeiro
Muita gente imagina Zurique apenas como uma cidade de bancos.
Mas foi justamente ali que comecei a perceber como a qualidade de vida influencia a forma como uma cidade é vivida.
O centro histórico é encantador.
As margens do Lago de Zurique convidam para longas caminhadas.
Os bondes passam silenciosamente enquanto moradores seguem sua rotina normalmente.
Foi uma das primeiras cidades onde percebi que existia uma mistura de “correria” e “tranquilidade”.
Mesmo sendo o principal centro financeiro do país.
Também visitei a famosa fábrica da Lindt.
Ver de perto a produção de um dos chocolates mais conhecidos do mundo foi uma experiência divertida, mas curiosamente o que mais ficou na memória foi caminhar pela cidade sem destino.
Sem roteiro.
Sem horário.
Foi ali que comecei, sem perceber, a praticar aquilo que anos depois eu descobriria chamar de slow travel.
Berna: uma capital que parece uma cidade do interior
Entre todas as capitais europeias que conheci depois, Berna continua sendo uma das mais agradáveis.
Ela não tenta impressionar.
Ela simplesmente acontece.
As ruas medievais.
As arcadas históricas.
As fontes espalhadas pela cidade.
O Rio Aar contornando o centro.
Tudo transmite calma.
Um dos momentos mais marcantes foi visitar o famoso parque onde vivem os ursos, símbolo histórico da cidade.
Mais do que isso, caminhar pelas ruas antigas fazia parecer que o tempo havia diminuído de velocidade.
Era impossível sentir pressa.
Lucerna e o lago que parecia uma pintura
Lucerna foi uma das cidades que mais me emocionaram.
Talvez pela combinação entre montanhas, arquitetura histórica e o enorme lago que muda completamente a paisagem conforme a luz do dia.
Fazer um passeio de barco pelo Lago de Lucerna foi uma experiência difícil de descrever.
Enquanto a embarcação avançava lentamente, pequenas vilas apareciam entre as montanhas.
Os Alpes refletiam na água.
As casas pareciam saídas de um filme.
Era impossível não ficar em silêncio observando tudo aquilo.
Foi um dos momentos em que percebi que algumas paisagens simplesmente não precisam de explicação.
Elas falam sozinhas.
Interlaken: onde a natureza parece exagerar
Se existe um lugar onde a natureza decidiu caprichar, esse lugar provavelmente é Interlaken.
A cidade fica entre dois lagos de um azul impressionante.
Ao redor, montanhas gigantescas dominam completamente a paisagem.
Mesmo quem nunca pratica esportes de aventura encontra ali um cenário inesquecível.
Passear pelas ruas.
Sentar em um parque.
Observar os parapentes pousando.
Tudo fazia parte da experiência.
Foi também uma das cidades onde comecei a entender que a beleza da Suíça não está apenas nos pontos turísticos.
Ela está no cotidiano.
Até uma caminhada simples pode se transformar em uma lembrança permanente.
Descobrindo a Suíça Italiana
Uma das maiores surpresas da viagem foi conhecer a região do Ticino.
Até então, minha imagem da Suíça era formada principalmente pelos Alpes, chalés e cidades de língua alemã.
Mas bastou atravessar as montanhas para tudo mudar.
Lugano.
Locarno.
Praças cheias.
Palmeiras.
Lagos.
Arquitetura italiana.
Clima muito mais leve.
Era quase difícil acreditar que eu ainda estava no mesmo país.
A influência italiana muda completamente o ambiente.
A gastronomia.
A língua.
O jeito das pessoas.
Foi como visitar outro destino sem sair da Suíça.
Essa diversidade cultural foi uma das coisas que mais me impressionaram durante aqueles 90 dias.
Lausanne e Genebra: um lado diferente da Suíça
Ao chegar na região francófona, a sensação era novamente de estar em outro país.
As placas mudavam.
O idioma mudava.
Até a arquitetura parecia ganhar novos detalhes.
Lausanne me chamou atenção pela forma como a cidade foi construída sobre colinas às margens do Lago Léman.
Cada rua oferecia uma vista diferente.
Cada caminhada terminava diante da imensidão do lago.
Já Genebra impressionava pela mistura entre cidade internacional e tranquilidade.
Era curioso perceber como um dos principais centros diplomáticos do planeta ainda conseguia manter parques enormes, margens agradáveis e um ritmo muito menos acelerado do que outras grandes cidades europeias.
Passei horas simplesmente caminhando pelo lago, observando pessoas lendo, andando de bicicleta ou apenas aproveitando o fim da tarde.
Era um estilo de vida que parecia valorizar muito mais o tempo livre.
Um passeio inesperado: da Suíça para a França de barco
Uma das experiências mais curiosas daqueles 90 dias aconteceu sem que eu tivesse planejado muito.
Saindo de Nyon, embarquei em uma pequena travessia pelo Lago Léman até Yvoire, na França.
A viagem durou pouco tempo, mas parecia uma mudança completa de cenário.
Yvoire é uma pequena vila medieval extremamente preservada.
Suas ruas estreitas, tomadas por flores durante praticamente todo o ano, davam a impressão de que o tempo havia parado.
Foi uma daquelas viagens de poucas horas que acabam ficando gravadas na memória justamente pela simplicidade.
Ali percebi que, muitas vezes, não é necessário atravessar continentes para conhecer algo completamente diferente.
Às vezes basta atravessar um lago.
Lugares pouco conhecidos que me surpreenderam
Os cartões-postais da Suíça são incríveis.
Mas algumas das minhas melhores lembranças vieram justamente dos lugares menos famosos.
As Cataratas do Reno (Rhine Falls), por exemplo, impressionam pela força da água.
É difícil imaginar uma queda d’água tão poderosa em um país conhecido pelas montanhas.
Já o Lago Blausee parecia praticamente irreal.
A água possuía um tom azul tão intenso que, olhando pelas fotografias, muita gente acredita que houve edição de imagem.
Mas não.
Era exatamente daquela cor.
Também visitei pequenas cidades onde praticamente não encontrei turistas brasileiros.
Vilarejos cercados por fazendas.
Estações ferroviárias minúsculas.
Praças silenciosas.
Restaurantes administrados pelas mesmas famílias há décadas.
Foram justamente esses lugares que mais despertaram em mim a vontade de conhecer destinos menos óbvios.
Hoje percebo que boa parte da identidade do Stradello nasceu ali.
O sistema ferroviário mudou minha forma de viajar
Se existe algo que representa a Suíça, além das montanhas, é a ferrovia.
Durante aqueles três meses utilizei trens praticamente em quase todos os dias.
No começo era apenas uma necessidade de locomoção.
Depois passou a fazer parte da própria viagem.
Os vagões eram confortáveis.
As paisagens mudavam constantemente.
Lagos apareciam entre montanhas.
Pequenas cidades surgiam inesperadamente.
Túneis atravessavam os Alpes.
Em alguns momentos eu nem percebia o tempo passar.
Foi ali que descobri uma das maiores vantagens de viajar de trem.
Você não apenas chega ao destino.
Você vive o caminho.
Talvez por isso eu tenha criado tanto carinho por esse tipo de viagem.
Até hoje, sempre que penso em deslocamentos tranquilos, os trens suíços vêm imediatamente à memória.
Viajar devagar me ensinou muito mais do que visitar atrações
No início da viagem eu ainda carregava aquele pensamento comum de quem está visitando um país pela primeira vez.
Queria conhecer tudo.
Ver o máximo possível.
Aproveitar cada minuto.
Mas conforme os dias passavam, algo começou a mudar.
Percebi que minhas melhores lembranças não vinham necessariamente dos lugares mais famosos.
Vinham das manhãs caminhando sem destino.
Das conversas rápidas com moradores.
Dos cafés onde fiquei observando o movimento por quase uma hora.
Dos bancos à beira dos lagos.
Das pequenas cidades onde parecia não existir nenhuma obrigação.
Da gastronomia local, os queijos, massas e chocolates incríveis.
Foi sem perceber que comecei a desacelerar.
Hoje entendo que essa foi minha primeira experiência real com o slow travel.
Mesmo sem conhecer esse termo na época.
A barreira do idioma nunca foi o maior desafio
Antes de embarcar eu acreditava que não falar alemão ou francês seria meu maior problema.
Não foi.
O verdadeiro desafio era lidar com o desconhecido.
Aceitar que eu cometeria erros.
Que pegaria um trem errado.
Que perguntaria algo da forma incorreta.
Que me perderia algumas vezes.
Tudo isso aconteceu.
E nenhuma dessas situações arruinou a viagem.
Pelo contrário.
Elas acabaram se transformando nas histórias que mais gosto de contar.
Hoje sempre digo para quem sonha fazer sua primeira viagem internacional:
Não espere dominar o idioma para viajar.
Viaje.
O idioma melhora durante o caminho.
A confiança também.
O que trouxe da Suíça não coube na mala
Quando voltei ao Brasil, trouxe chocolates.
Fotografias.
Lembranças.
Mas percebi que o mais importante era invisível.
Voltei com uma nova maneira de enxergar as viagens.
Passei a entender que conhecer um país vai muito além de visitar atrações.
É observar como as pessoas vivem.
Como utilizam os espaços públicos.
Como respeitam o tempo umas das outras.
Como valorizam a natureza.
Como valorizam o silêncio nos transportes públicos.
Essa experiência influenciou diretamente a criação do Stradello anos depois.
Muitos dos valores presentes neste projeto nasceram durante aqueles 90 dias.
A vontade de incentivar viagens mais calmas.
O interesse por destinos menos conhecidos.
A busca por experiências locais.
E a certeza de que não existe roteiro perfeito quando estamos realmente abertos para descobrir um lugar.
Conclusão
Se alguém me perguntasse hoje qual foi a maior lembrança daqueles 90 dias na Suíça, eu provavelmente não responderia com o nome de uma cidade.
Nem de uma montanha.
Nem de um lago.
Eu diria que foi a sensação de descobrir um novo jeito de viajar.
Um jeito mais lento.
Mais atento.
Mais humano.
Foi ali que percebi que viajar não significa apenas colecionar destinos.
Significa colecionar formas diferentes de enxergar o mundo.
E talvez tenha sido exatamente isso que a Suíça me ensinou.
Se você também acredita que viajar pode ser muito mais do que cumprir roteiros, continue acompanhando o Stradello. Aqui compartilhamos destinos, experiências e histórias para quem prefere conhecer um lugar com calma, profundidade e presença.
FAQ
Vale a pena passar 90 dias na Suíça?
Sim. Um período mais longo permite conhecer diferentes regiões do país, fugir dos roteiros tradicionais e viver experiências muito além do turismo convencional. Além disso, brasileiros com passaporte podem visitar o país, assim como outros destinos da Europa, por até 90 dias.
É possível viajar pela Suíça falando apenas inglês?
Na maior parte dos destinos turísticos, sim. Mesmo com inglês básico, é possível se comunicar, principalmente em hotéis, estações, mercados e atrações.
Qual cidade mais impressiona na Suíça?
Cada cidade possui características únicas. Zurique, Lucerna, Berna, Lugano e Lausanne proporcionam experiências completamente diferentes entre si. Além de outras cidades menores medievais que achei um charme a parte.
Qual foi o lugar mais bonito da viagem?
É difícil escolher apenas um, mas o Lago Blausee, as Cataratas do Reno (Rhine Falls) e as paisagens ao redor de Lucerna estão entre os lugares mais marcantes.
O que mudou depois dessa experiência?
Essa viagem mudou completamente minha forma de viajar e inspirou a filosofia do Stradello, baseada em slow travel, experiências locais e destinos para desacelerar.
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Sobre o autor
Cléber Lima
Bacharel em Turismo e criador do Stradello
Bacharel em Turismo desde 2017, apaixonado por viagens, experiências autênticas e pela descoberta de lugares que costumam passar despercebidos pelos roteiros tradicionais.
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